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Relações Inter geracionais entre avós e netos e suas implicações

Elizabete Martins - Gerontologista


De acordo com as pesquisas realizadas sobre a percepção que as crianças têm sobre o papel de ser avô no século XXI em alguns países. O Brasil, no Estado da Bahia, o avô seria considerado mais lúdico e a avó, mais afetiva e cuidadora. ¹. Isto, abrange desde ensinar a criar um brinquedo, confeccionar e empinar pipas ou desenvolver um objeto musical, como o berimbau e nos intervalos das brincadeiras, as avós assumem os cuidados, a higiene pessoal, o alimento e os conselhos, construindo valores e memórias afetivas.

Já na, Itália os avós apresentam sentimentos positivos em relação aos netos, atribuindo uma grande importância a seu papel de educador e no auxilio diário nas atividades. A linhagem paterna realiza atividades compartilhadas ao ar livre e à prática esportiva, as mulheres realizam atividades de contação histórias de fábulas ou sobre sua própria família. Despertando o lúdico e o respeito aos ancestrais

Em Portugal, as avós, tanto maternas como paternas, são presentes nos cuidados aos seus netos, nos grandes centros e também na área rural as avós são muito importantes na transmissão de saberes culturais, no apoio financeiro, e cuidados infantis. ²

Neste interim, A reciprocidade, o equilíbrio de poder e a relação afetiva são características básicas para o desenvolvimento de atividades em conjunto, propiciando o aprendizado, em ambientes que ajudam a construir o humano, no ambiente familiar, onde o amor e o cuidado fazem florescer o potencial infantil. Uma família bem estruturada vai passando valores, conhecimento e respeito transmitidos pelos entes longevos entre as gerações. ³

Portanto, as mulheres tomam conta de seus filhos, depois dos netos, ao mesmo tempo em que se ocupam dos seus pais e, quando ficam mais velhas, recebem o apoio de seus filhos, principalmente, das filhas e noras em um ciclo de reciprocidade diretas e indiretas.4. Lembrando que em cada cultura existe especificidades a serem analisadas. Com o a mudança do padrão familiar, muitas vezes, os avós são submetidos ao isolamento social ou institucionalização, sendo afastados do convívio familiar, com a ruptura dos vínculos afetivos e do contato com seus netos.

Assim como as crianças tem sua percepção em relação aos avós, os avós têm expectativas em relação a ser avô, perpetuando a espécie humana. Deixando sua descendência. Segundo um estudo publicado na Evolition and Human Behavior, apontam que avós que ajudam a cuidar dos netos vivem mais do que aqueles que não tem tanta participação na rotina das crianças 6. Podemos mencionar a expectativa do neto em assumir os negócios da empresa, herdando a vontade de seguir determinada carreira, ou aptidões.

Trata-se de transmissão de valores e saberes. Como parte do educar: ensinar a gostar de ler, brincar, jogar cartas, usar uma câmera fotográfica, apreciar o mar. Essas avós queriam participar do crescimento dos netos e se sentiam desprestigiadas e desvalorizadas porque não eram ouvidas. 7

Estamos vivendo um momento delicado nas relações avós e netos, a diferença geracional, aliada ao uso de tecnologia, com música alta linguagens inapropriadas, torna difícil a relação Inter geracional.

De acordo com Redler, avosidade não remete a uma idade cronológica, mas a laço de parentesco localizado nas filiações trigeracionais, do ponto de vista pessoal, familiar e social. Neste interim, tornar-se avó passa a ser um privilégio, acompanhando a perpetuação da linhagem genética familiar, histórias familiares, hábitos e costumes passados por gerações. Cumprindo o ciclo da vida de forma natural.

As mudanças nas relações entre avós e netos decorrentes das transformações pelas quais as famílias vêm passando têm levado a um crescente questionamento sobre o papel dos avós na educação de seus netos.

No Brasil, em muitas famílias de baixa renda os avós assumem o papel de provedor do sustento familiar, parcial ou total, além da criação e educação de seus netos, enquanto os pais trabalham. Acarretando na sobrecarga física e emocional dos avós muitas vezes doente, impacientes, sem condições de acompanhar as transformações educacionais, levando a conflitos Inter geracionais.

Em estudo realizado por Neugarten, em 1964, entrevistando 70 avós de classe média, foram estabelecidos cinco estilos diferentes de avós: divertidos, formais, distantes, cuidadores e conservadores da sabedoria familiar.

No entanto, alguns aspectos são relevantes no contexto reflexivo. Envelhecemos como vivemos e trazemos as marcas positivas e negativas em nosso jeito de ser e de agir que são incorporadas em nosso cotidiano e do idoso.

Em 1976, foram descritos quatro estilos de exercer avosidade, que variam ao longo da vida e diferem de acordo com cada neto: permissivo, simbólico, individualista e tirano. Numa década percebemos uma transformação pujante na característica do idoso.

Em outra classificação, em 1985, os estilos de avós foram divididos em três grupos: avós companheiros, avós tiranos e avós invólucros.7 Muitos avós cobram a presença constante de filhos e netos de forma impositiva, levando ao afastamento e gradativamente o rompimento dos vínculos afetivos. Também em 1985, os avós foram classificados em quatros grupos: estar aí, guardião nacional da família, árbitro e conservador da biografia da família 8.

Quando os pais são muito permissivos e os avós querem estabelecem limites e regras, a relação familiar fica muito fragilizada. As vezes observamos idosos fazendo concessões para fugir da solidão. Ele não gosta ou aprova a conduta dos filhos e netos, mas se veem refém da situação.

O conceito de estilo de avós vai além das práticas dos avós propriamente ditas. O estilo é, na verdade, o contexto dentro do qual operam os esforços dos avós em socializar seus netos, de acordo com suas crenças e valores 9.

Trata-se de um grande desafio diante das propostas do mundo moderno onde a tecnologia impera nos lares e na vida familiar, tornando desgastante o ato de reunir à mesa sem a presença do celular, ou passar um final de semana na casa do avô que não tem sinal de internet. Diante do exposto, há de se pensar numa forma de conquistar os jovens, pois a interação geracional, estimula o respeito, alegria, disciplina, resgate memórias gustativas e afetivas, segurança e equilíbrio familiar.

Em relação à preferência, a literatura aponta que a eleição afetiva dos avós em relação aos netos, e dos netos em relação aos avós, acontece principalmente na infância, momento em que há uma redefinição dos papéis familiares, em virtude do nascimento do novo descendente, e momento em que essas duas gerações tendem a conviver por mais tempo, principalmente nas situações de cuidado e guarda dos netos (Ramos, 2011).




²Rodrigues, J. P. (2008). Práticas e saberes das avós no cuidar das crianças: uma abordagem intergeracional e intercultural. Dissertação de mestrado em Comunicação em Saúde. Universidade Aberta, Lisboa. Recuperado em 20 setembro, 2015, de: http://repositorioaberto.uab.pt//handle/10400.2/728.

³Bronfenbrenner, U., & Morris, P. (1998). The ecology of developmental processes. In: Damon, W. (Org.). Handbook of child psychology, 1, 993-1027. New York, NY: John Wiley & Sons.

4.Attias-Donfut, C. (2004). Sexo e envelhecimento. In: Peixoto, C. (Org.). Família e envelhecimento, 1, 85-108). Rio de Janeiro, RJ: FGV.

8.Dias CMSB, Silva DV. Os avós: uma revisão da literatura nas três últimas décadas. In: Féres-Carneiro T, organizadora. Casal e família, entre a tradição e a transformação. Rio de Janeiro: Ed. Nau; 1999, p. 118-149.

9.Redler P. Abuelidade. Más Allá de La Paternidade. Argentina: Ed. Legasa; 1986.


10. Neugarten BL, Weinstein KK. The changing american grandparent. Journal of Marriage and Family 1964;26(1):199-204.


11. Cherlin AJ, Furstenberg FF. Styles and strategies of grandparenting. In: Bengtson VL, Robertson JF, editors. Grandparenthood. Beverly Hills, CA: Sage Publications; 1985. p. 97-116.


12. Bengtson VL, Robertson JF, editores. Grandparenthood. Beverly Hill, CA: Sage Publications; 1985.


13. Darling N, Steinberg L. Parenting style as a context: an integrative model. Psychological Bulletin 1993;113(3):487-96.


14. Ramos, A. C. (2011). Meus avós e eu: relações intergeracionais entre avós e netos na perspectiva de crianças. Tese de doutorado em Educação. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS. Recuperado em 20 setembro, 2015, de: http://www.lume.ufrgs.br/handle/10183/32306.


Artigo postado em janeiro 2023 como atividade do Mestrado.

Elizabete Martins

@elizabetemartinslv

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